Estudo sugere que epidemia de zika pode ser subestimada por confusão com dengue

Por: labnetwork | Data da Postagem: 12/08/2016

Um estudo apoiado pela FAPESP e coordenado por pesquisadores da Faculdade de Medicina de So Jos do Rio Preto (Famerp) sugere que o tamanho da epidemia causada pelo vrus zika no Brasil pode estar sendo subestimado nas estatsticas oficiais – e parte dos casos confundida com dengue.

A equipe, coordenada pelo professor Maurcio Lacerda Nogueira, integrante da Rede Zika,  analisou por meio de testes moleculares amostras sanguneas de 800 pacientes com suspeita de dengue atendidos entre janeiro e agosto de 2016. O material foi fornecido pelo Hospital de Base, ligado Famerp, e pela Secretaria Municipal de Sade de So Jos do Rio Preto.

O diagnstico inicial – feito com base nos sintomas clnicos e em testes sorolgicos – foi confirmado em apenas 400 amostras. Mais de 100 dos casos analisados deram positivo para o vrus zika e, em uma das amostras, foi identificado o vrus causador da febre chikungunya.

Nas outras quase 300 amostras restantes no foi encontrado nenhum dos trs arbovrus transmitidos pelo mosquito Aedes aegyptie os pesquisadores suspeitam que, na realidade, pode se tratar de casos de gripe ou de outras viroses.

Parte dos dados foi publicada este ms no Journal of Clinical Virology.

“Esses resultados indicam que aquela diviso clssica que se costuma fazer entre os sintomas – associar conjuntivite ao zika e dor nas articulaes ao chikungunya, por exemplo – serve apenas para dar aulas. Na prtica, os sintomas se confundem. E tambm se confundem os resultados dos testes sorolgicos atualmente usados na rotina dos laboratrios e servios de emergncia”, afirmou Nogueira.

Embora j tenham sido desenvolvidos novos mtodos sorolgicos capazes de diferenciar com preciso os anticorpos contra o vrus da zika e da dengue, ponderou o pesquisador, eles ainda esto restritos ao mbito da pesquisa acadmica.

As metodologias hoje disponveis tanto na rede pblica de sade como nos laboratrios e hospitais particulares, segundo Nogueira, ainda podem dar um resultado falso-positivo de dengue nos casos de pacientes com zika – uma vez que os dois vrus so muito semelhantes.

“A nica forma de ter certeza por meio de testes moleculares, como o PCR em tempo real – bem mais caro que a sorologia. Os laboratrios de sade pblica, como o Instituto Adolfo Lutz, no conseguem oferecer esse tipo de exame para toda a populao e acabam priorizando mulheres grvidas e pessoas com suspeita de Guillain-Barr (uma das complicaes neurolgicas da infeco pelo Zika)”, acrescentou o pesquisador.

 

Implicaes

A Organizao Mundial de Sade (OMS) preconiza que todos os casos em que, por algum motivo, no se tem certeza do diagnstico devem ser tratados como se fossem dengue, pois dentre as doenas transmitidas pelo Aedes ela a que oferece maior risco de morte.

Na avaliao de Nogueira, um resultado falso-positivo de dengue no traz prejuzos para o tratamento dos pacientes, mas gera custos desnecessrios para o sistema de sade.

“Para uma pessoa com zika, desde de que no esteja grvida, voc recomenda apenas repouso e hidratao em casa. J um paciente com dengue precisa retornar ao servio de sade para tomar soro e fazer exames mais complexos, bem como um acompanhamento do nvel das plaquetas, pois h risco de hemorragia”, comentou Nogueira.

Para o pesquisador, contudo, um dos problemas principais a incerteza que resultados falsos-positivos geram em relao aos dados epidemiolgicos oficiais.

“Em 2015, o Estado de So Paulo bateu recorde no nmero de casos de dengue [foram mais de 650 mil casos segundo dados da Secretaria de Estado da Sade]. Agora eu me pergunto: quantos desses no eram na verdade de zika? Os dados epidemiolgicos de dengue no Brasil dos ltimos 20 anos eram considerados bastante slidos. Mas os dos ltimos dois anos comeamos a questionar se eram reais”, disse.

Segundo o pesquisador, tal incerteza pode prejudicar no longo prazo o desenvolvimento de polticas pblicas de preveno e tratamento de doenas, bem como os estudos de custo-efetividade da vacina contra a dengue e, futuramente, contra Zika.

“Se a estimativa do nmero de casos est errada, a avaliao de custo-efetividade da vacina tambm ser equivocada”, alertou.

 

Microcefalia

Ao contrrio do que foi observado em estados como Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, o avano no nmero de casos de zika em So Paulo no tem sido acompanhado por uma exploso no nmero de crianas nascidas com microcefalia.

Na avaliao de Nogueira, possvel que na Regio Nordeste e no Rio existam outros fatores – ambientais ou genticos – que ajudem a explicar o grande nmero de complicaes neonatais.

“Uma das hipteses aventadas recentemente que a vacinao contra febre amarela poderia proteger contra o desenvolvimento de microcefalia. No interior de So Paulo esse imunizante faz parte do calendrio vacinal e, no litoral, ocorreu uma campanha h poucos anos”, comentou Nogueira. Com informaes da Fapesp